sábado, 5 de julho de 2008

Uma história



NUMA DAQUELAS TARDES CHUVOSAS, EXCELENTES PARA LEITURA, PARA ESPANTO DE TODOS, SAI.

LÁ ESTAVA ELA, ALTA, MAGRA, ESGUIA MESMO. CABELOS CURTOS, NA ALTURA DO QUEIXO, LISOS, TALVEZ UMA DESCENDÊNCIA ASIÁTICA OU ATÉ MESMO O QUE CHAMARIA DE "NOTA DE RODAPÉ" DE UMA COLONIZAÇÃO JÁ NÃO LEMBRADA. ÓCULOS GATINHO, CAMINHAVA CALMAMENTE NO LABIRINTO DE ESTANTES LOTADAS.

PARAVA POR ALGUNS MINUTOS,

ESCOLHIA CUIDADOSAMENTE O LIVRO, APÓS O RECLINAR DE CABEÇA.

VOCÊS SABEM, AQUELE MOVIMENTO RIDÍCULO QUE NÓS, AFICIONADOS POR BIBLIOTECAS E LIVRARIAS, FAZEMOS.

OS NOVATOS INCLINAM A PRIMEIRA VEZ PARA A DIREITA E SÓ DEPOIS PERCEBEM QUE O RITUAL É PARA A ESQUERDA.

HELENA, DESCOBRI MESES MAIS TARDE, TROCAVA SEUS "GATINHOS" POR UM DAQUELES ÓCULOS DE LEITURA.

LENTES MINÚSCULAS.

PONTA DO NARIZ.

FOLHEAVA ALGUMAS PÁGINAS, LIA ATENTAMENTE AS ORELHAS, LIVRO APÓS LIVRO.

FOI QUANDO PERCEBI QUE O TROCA-TROCA DE ÓCULOS, A DEIXAVA UM TANTO DESAJEITADA, JÁ QUE O CASACO QUE CARREGAVA LUTAVA COM SUA BOLSA.

FOI NESTE INSTANTE QUE PERCEBI O QUANTO LHE DAVAM PRAZER AS LETRAS.

AS PALAVRAS.

RITUAL.

SEUS ÓCULOS DE LEITURA, QUASE UMA PEÇA ÍNTIMA.

RESOLVI CONTINUAR OBSERVANDO, DISCRETAMENTE, AO LONGE. NÃO SEI BEM O PORQUE, MAS SUA DISCRIÇÃO PASSOU-ME UMA SENSAÇÃO DE QUE, SE PERCEBESSE MINHA PRESENÇA OU PERCEBESSE ESTAR SENDO OBSERVADA, FUGIRIA, RUBRA COMO QUEM FOI PEGA EM FLAGRANTE. AFINAL, ESTAVA COM SUA PEÇA MAIS ÍNTIMA.

TOCA O SINAL PARA O FINAL DA AULA. ESTA, MUITO CANSATIVA, FORAM 50 MINUTOS "TENTANDO" EXPLICAR A 50 ALUNOS, O QUE ERA HETERÔNIMO!

NESTE DIA SENTI PENA DE PESSOA, DE ALBERTO CAEIRO, DE ÁLVARO CAMPOS E DE RICARDO REIS.

QUANDO ME DEI CONTA LÁ ESTAVA EU, NOVAMENTE NA LIVRARIA A PROCURA DE PAZ OU QUEM SABE, TALVEZ, ENCONTRAR UM NOVO COMPÊNDIO SOBRE A BOA E VELHA GUERRA.

ENCAMINHEI-ME AOS LANÇAMENTOS E LÁ ESTAVA ELA, SILENCIOSA, DESTA VEZ TODA DE BRANCO, PENSEI. DOUTORA? VETERINÁRIA? DENTISTA, TALVEZ?

ESFORCEI-ME EM LEMBRAR A ÚLTIMA VEZ QUE A VI, NA TENTATIVA DE BUSCAR UM PADRÃO, SABE, DAQUELES... VÉSPERA DE FERIADO, DIA DE PAGAMENTO... OU SEI LÁ O QUE.

PODERIA ESTAR, SIMPLESMENTE, COMO EU, EM BUSCA DE PAZ.

SEGUI-A,

"quando olho para mim mesmo percebo".
tenho tanto a mania de sentir
que me extravio às vezes ao sair
das próprias sensações que eu percebo"

HELENA, DESTA VEZ, COMPROU TRÊS LIVROS, PANE.

QUANDO VOLTARIA? NÃO CONHECIA SUA RAPIDEZ DE LEITURA. UM LIVRO POR DIA?

UM MÊS? SERIAM PRESENTES?

PRECISAVA DESCOBRIR. SEGUI-A COMO SE SEGUE A UM PADRE.

QUADRAS E MAIS QUADRAS, RUAS ESCURAS, ESQUINAS SOMBRIAS. NUMA DELAS UM GRUPO DE JOVENS, SAINDO DE UM BAR, FIZERAM TANTA ALGAZARRA QUE QUANDO CONSEGUI SAIR DO REDEMOINHO TIVE QUE APERTAR OS PASSOS, MAS A PERDI.

PARECIA ESTAR FADADO A PERDAS.

NAQUELA NOITE NÃO DORMI, E POR CAUSA DE HELENA.

EM MINHA BUSCA, CURIOSIDADE DOS APAIXONADOS, NÃO COMPREI NENHUM LIVRO.

VOLTEI-ME AO DE CABECEIRA...

"o luar quando bate na relva".
não sei que cousa lembra...
lembra-me a voz da criada velha
contando-me contos de fadas
e de como nossa senhora vestida de mendiga
andava a noite nas estradas
socorrendo crianças maltratadas."

LEVANTEI-ME E FUI ATÉ A JANELA. CASARÃO ANTIGO. FOI DO MEU AVÔ, QUE POR SUA VEZ HAVIA HERDADO DE UM TIO DISTANTE QUE NEM SEQUER CONHECEU.

VOLTEI A RUA, VOLTEI A ESQUINA ONDE PERDI HELENA.

QUEM SABE?

UMA LUZ ACESSA EM UMAS TANTAS JANELAS QUE COMPUNHAM AQUELE CENÁRIO.

MORAR EM PILHAS.

COM O SOL DIRETO EM MEUS OLHOS, LEVANTEI-ME, O CORPO DOÍA MUITO. A CALÇADA NÃO É BOA PARA DORMIR.

NÃO SE TEM BONS SONHOS.

AO LEVANTAR-ME QUASE FUI ATROPELADO POR UMA AMBULÂNCIA E UM CARRO DE POLÍCIA.

PARARAM NO EDIFÍCIO CINZA.

AGLOMERAÇÃO.

MUITA GENTE DESCENDO, TODAS, TODAS AS JANELAS ABERTAS E FOI AÍ QUE A VI.

EMPURRADO POR UM POLICIAL, SÓ TIVE TEMPO DE VER SEU ROSTO À MOSTRA NA MACA. PERGUNTEI O QUE HAVIA ACONTECIDO.

FOI VENENO, DIZIA UMA SENHORA COM CREME NO ROSTO E BOBS NO CABELO.

FOI EXCESSO DE CALMANTE, DISSE UM SENHOR BAIXINHO EM SEU PIJAMA DE BOLINHAS, ENFIM A AMBULÂNCIA PARTIU.

MEU CORAÇÃO.

APÓS UM BANHO, DAQUELES QUE LAVAM A ALMA, ESTAVA DECIDIDO A PROCURÁ-LA. PELA LÓGICA PERCORRI OS HOSPITAIS DA REGIÃO.

NADA.

AFINAL NÃO SABIA SEU NOME E PELA DESCRIÇÃO AS RECEPCIONISTAS DIZIAM QUE EXISTIAM MUITAS PACIENTES MAGRAS E COM CABELOS LISOS.

EU NÃO PODIA DESCREVER SEUS ÓCULOS!

ESTAVA DECIDIDO! APÓS A AULA, VOLTARIA AO EDIFÍCIO CINZA E AÍ SIM, TERIA MAIS INFORMAÇÕES.

NÃO SEI PORQUE OLHEI NO RELÓGIO: 3:00 HS!

A MOÇA DO 57? SUICIDOU-SE. FOI ENTERRADA HOJE.

NO CEMITÉRIO, QUADRA QUATRO, TERCEIRO TÚMULO À DIREITA, EU LI...

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"AQUI JAZ HELENA SIQUEIRA".
MULHER, POETISA E SÓ.
1957 A 1997

2 comentários:

Anne M. Moor disse...

Aiiiiiiiiiiiiii Suzana!
Como tu mesmo dirias, nunca estamos só... E livros nos dão um mar de 'amigos' para nos acompanhar... Força minha amiga, força...
Beijão

Paradoxos disse...

E a vida segue ininterrupta com perseverança... Beijos